16 de novembro de 2005

CARAS
Numa sorveteria de Santa Catarina descubro uma revista CARAS. A versão brasileira é tão cretina como a portuguesa. E os repolhos que lá aparecem foram adubados com o mesmo cocó de vaca.
Ana Maria Braga, a apresentadora cantante vinha lá. Estava com um ar quase tão feliz como esta manhã quando contava ao papagaio: "Sabe como se chama um português inteligente?" "Noooummm...", "Turista!. Foi um fartote de riso. Vê-se que não tem viajado pelo Nordeste, nem tem tomado conhecimento do nome do país que mais tem investido no Brasil nos últimos tempos. Enfim, louras. E fora de prazo, ainda por cima. Mas a CARAS gosta.

PS: Um baiano amigo chamaou-me a atençao para a perda de compostura do que acima ficou escrito. Tem razao (nao acho os tils, aqui no Pântano do Sul, deve ser da chva...). Erro meu. Mas a loura e a porra do papagaio abalam os nervos de qualquer um. Quanto mais... nervos de português ;)

11 de novembro de 2005

NIEMEYER EM SÃO PAULO

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Memorial da América Latina-Átrio do Auditório (SP)
PRÉMIO

mesmo à distância, não posso deixar de reproduzir (com as devidas vénias autorais) esta foto, publicada hoje no Público.
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"Um Sadhú (homem-santo indiano) com pasta de sândalo na fronte depois de um banho madrugador no rio Sangam"

E de lhe atribuir, a título pessoal, o prémio A FOTO MAIS ESTÚPIDA E SEM INTERESSE 2005.
Parabéns aos editores pela escolha.

10 de novembro de 2005

COISAS BRASILIS

Levo desta viagem várias lições. Sendo que a primeira é a de que se pode viver uma vida mais generosa.
A Europa está velha. Uma velha senhora que aprendeu com os erros e por isso se tornou um dos locais mais seguros de viver. Sem ter a decadência dos Estados Unidos que nos oferece de bandeja a visão do fim de um império, o nosso continente perdeu algumas qualidades da juventude. A primeira, a possibilidade de se surpreender e maravilhar com o desconhecido. A segunda, a capacidade de acreditar na bondade.
Aqui, no Brasil, tenho sido recebido como um amigo. Por razões que não têm nada a ver com o maior ou menor grau de sucesso do meu trabalho. Apenas porque fui apresentado como um amigo de um amigo. E gostaria de pensar que nessa apresentação ia incluída a expressão "um homem de bem".
Quem em Portugal continua a receber de forma continuada gente desconhecida, apenas porque está de passagem e precisa de dormir ou comer? Quem faz tudo o que pode para ajudar sem pedir nada em troca? Quantos de nós?
Hoje, no autocarro/ónibus uma pessoa sentada voltou a oferecer-se para me segurar no colo a mochila, para que eu viajasse de pé com mais conforto. Quando agradeci, limitou-se a dizer "de nada", quase surpreendida pela minha gratidão. Esta é uma prática comum em todas as terras por onde passei.
Levo desta viagem a certeza de que se pode viver com pouco e ainda partilhar com os outros.
Enquanto europeu, estava a ficar esquecido disto.
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8 de novembro de 2005

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Caros amigos, chamo a atenção para o encontro de amanhã na USP, convite amável do Centro de Estudos Portugueses da referida universidade. Falaremos do meu trabalho, desta viagem pelo Brasil e de tudo o que a informalidade e o interesse sugerirem.
No edifício de Letras, sala 266, 14 h.
ps: Não trazer terno, gravata ou perguntas difíceis, por favor...
EX VOTOS - Salvador (BA)

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NIEMEYER - IGREJA DE SÃO FRANCISCO (BH)
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Sorveteria de Salvador

7 de novembro de 2005

SÃO PAULO
A gente sempre imagina as coisas. Até as cidades. Antecipamos a sua dimensão, a forma dos prédios, a dificuldade em navegar no seu interior.
E no fim, as coisas são sempre diferentes.
S.Paulo também. Surge grande e metropolitana como se pensava. Como Londres ou Paris.
Só que mais quente. Com brasileiros dentro em vez de franceses. O que, sem querer desmerecer mes amis, me parece bem mais interessante.
Em S.Paulo recupero o olhar das minhas personagens em construção. E foi fácil saber onde elas passaram, o que viram e sentiram...

3 de novembro de 2005

OURO PRETO

Uma coisa é certa: os nossos antepassados comuns deveriam ter uns músculos de perna capazes de impor respeito. Ouro Preto edifica-se sobre colinas íngremes. Na verdade, desconfio que as igrejas foram puxadas inteiras lá para cima com cordas, antes de ficarem em equilíbrio durante séculos.
O conjunto monumental é impressionante. Mais uma vez seria difícil encontrar no país-origem igrejas tão bem construídas ou tão ornamentadas. Afinal, nem todo o ouro fez a triangulação histórica em direcção a Inglaterra. Uma boa parte ficou por cá, colada aos altares e à decoração das capelas. E ainda bem.
As estátuas do Aleijadinho impressionam sobretudo pelo olhar. Não é preciso ser vidente para reconstituir o rosto do artista. Ele repete-se imagem após imagem. O mesmo olhar cansado e descrente. A mesma decepção com a vida terrena. Até a pose distorcida de muitas figuras nos remete para o seu autor.
Outro problema de Ouro Preto é a comida: é boa de mais. A comida mineira em todo o seu esplendor. Do feijão tropeiro aos assados, da galinha caipira a... sei lá a quê! A tudo.
Nossa senhora das dietas me proteja.
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1 de novembro de 2005

BELO HORIZONTE

Chegar de autocarro/ónibus tem algumas vantagens. Como as distâncias entre as cidades são medonhas, tudo medido em milhares de quilómetros, o corpo moído pelos buracos das estradas vai-se habituando à paisagem. Acontece que voei de Salvador até à capital de Minas Gerais.
Aí entra a imaginação. A ideia do solo revolto em busca dos minérios tinha criado no meu espírito a ideia de ir encontrar um terra plena de elevações (o que é verdade) mas árida. Despida de vegetação. Ora foi uma surpresa quando o avião se começou a abeirar da terra e o verde das colinas se meteu a cobrir tudo. Chovia, ainda por cima, o que fazia um contraste interessante com o calor da Bahia.
Belo Horizonte faz-me lembrar Lisboa. Talvez seja pelos jardins, ou pela mistura de prédios dos anos 50 com outros acabados de construir. Ou pelas avenidas largas que remetem para a Av. da Liberdade ou para a Fontes Pereira de Melo. Cidade tranquila onde a gente se sente em casa, portanto.
Claro que com a minha perícia na interpretação de mapas ainda não consegui ver grande coisa, ocupado em dar voltas e voltas ao mesmo quarteirão;;;
(suspiro)

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31 de outubro de 2005

CULTURA DESTE LADO DO MAR

Passo a vida a fazer figura de ignorante respondendo à pergunta "Já leu o escritor x". Julgava ter lido alguma coisa de literatura brasileira contemporânea, mas parece que não. São tantos os nomes que só me resta dizer "Nunca li". Verdade seja dita que por aqui, mesmo entre as camadas mais eruditas o desconhecimento é igual. Saramago, Pessoa e Eça estão totalmente integrados no imaginário. Mas Sophia é uma desconhecida fora dos meios universitários, bem como Herberto H. e por aí fora.
Por outro lado, começa a falar-se dos nomes novos da literatura portuguesa, com alguns equívocos pelo meio. Enfim, por algum lado teremos de começar. O que me conduz à pergunta:
O QUE ANDAM A FAZER OS NOSSOS ADIDOS CULTURAIS, EMBAIXADORES, CONSULES E QUEJANDOS? Quer dizer: além de roçarem o cu pelas cadeiras antigas e ganharem uma fortuna, enquanto um país inteiro se mantém convencido que Portugal é um país de idiotas, prepotentes e provincianos. Mas essa questão por ser demasiado séria e irritante ficará para um post... posterior.

27 de outubro de 2005

SÃO SALVADOR
"A terra de nosso senhor, nosso senhor de bonfim... Bahia oooohh...."

O autocarro cheirava um bocado mal. Mas quem me mandou escolher o lugar 37, junto à casa de banho, onde ninguém deveria defecar. Na madrugada, quando o corpo doído da tentativa de imaginar uma cama num assento duplo já se repousou, chega-se no terminal moderno.
Quem chega do interior é como se chegasse da dor: temos vontade de nos lavarmos no mar, na alegria musical, na perfeição física que nos espanta.
A estátua de Castro Alves, o poeta, espreita a água lá embaixo, não longe da encosta que os portugueses galgaram e mais tarde se encheu de putaria. E de putaria esteve o Pelourinho cheio, a zona central que inspirou Jorge Amado. Por todo o lado se avistam as páginas lidas: Jubiabá virou stand de automóveis, Gabriela é nome de cachaça com mel e canela, Teresa Batista e Pedro Archanjo são ruas onde a música explode a toque de percursões várias.
Mesmo trazendo o estigma da nacionalidade invasora fazem-nos sentir em casa. Mulatas e negras lindas nascem da calçada que mudou de nome, enquanto os "negões" se chegam às turistas brancas, muitas louras, e quem sabe onde a noite irá parar.
Chega-se a Salvador e percebe-se por que todos os lugares estão cantados. "Naararamm em Itapuã...".

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22 de outubro de 2005

DICIONÁRIO

Quando se viaja pelo Brasil, há palavras que convém saber.

MURIÇOCA: coisa irritante que vem não se sabe de onde e nos tira o que nos faz falta. O mesmo que mosquito.
MOLEQUE: o mesmo que muriçoca: PÉ DE... Coisa que no Brasil se come.
CORAL: animal que não se deve pisar.
CASCAVÉL: o mesmo que Coral, mas mais discreta, com excepção do guizo (TSSSSSSSSSsssss)
POLÍTICO: Muriçoca que gostaria de ser Coral. Pessoa mais cara de subornar que um polícia de trânsito. (ver "Mensalão").
POVO: local onde o político coloca o pé para não ser picado pela honestidade.
O BLOGUE

Enquanto faço as intermináveis viagens de "ónibus", neste país-continente, ou atravesso de balsa um rio onde os turistas se esqueceram de ir, penso como gostaria de ir partilhando isso com os leitores do Prazer_Inculto.
Mas depois o tempo falta. E os cyber-cafés encontram-se frequentemente fora de mão.
Vai-se fazendo o que se pode.
CHAPADA DIAMANTINA
Há poucos locais na terra assim tão interessantes. O desenho rectangular das montanhas, a lembrar os canyons americanos (mas em verde), as florestas e os rios que pedem que se cruzem para cá e para lá. As cachoeiras que surgem no final dos percursos difíceis e lavam todo o esforço.
Ainda bem que a tv só fala no Rio e na violência do Brasil. Mais sobra para quem se faz à estrada e descobre que a beleza tem muitas formas.
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17 de outubro de 2005

VALE DA LUA

Quando achamos que já vimos tudo, descobrimos o Vale da Lua. Ou, dezenas de horas de autocarro depois, a Chapada Diamantina. E aí, a surpresa, recomeça.

7 de outubro de 2005

MILHARES DE QUILÓMETROS DEPOIS
Para quem chega de mochila às costas, as sandálias ainda com restos de lama do rio Tapajós e os olhos cheios das dificuldades do povo do nordeste, das histórias dos caboclos que vivem com e da floresta, Brasília impressiona.
Avenidas largas numa cidade desenhada em forma de asa de avião, cortada a meio pela fuselagem. O projecto do presidente Juscelino, em finais dos anos 50 transformado pela mão de grandes arquitectos numa maravilhosa metrópole. Por algum tempo descanso do esforço de atravessar um país com tanta beleza como problemas sociais, um povo gentil na sua grande maioria atormentado, noutros lugares pela insegurança e pelas consequências da pobreza terceiro mundista.
Pouco desse Brasil se vê nesta Brasília exaltante de edifícios e civilidade.
Sento-me no interior dos vitrais azuis do Santuário Dom Bosco e respiro antes de voltar a pôr a mochila às costas.
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22 de setembro de 2005

TERRA BRASILIS

Nos próximos meses é deste lado do mar que vou escrever.
Começo por São Luiz, no estado do Maranhão.
Eta terra mai porreta!
A arquitectura é uma maravilhosa reminiscência de um tempo que não foi em tanta coisa maravilhoso, os séculos XVIII e XIV. Casarões altos, pintados de azul claro, vermelho, branco, naquelas combinações de cor que só existem deste lado.
E o mar (que não experimentei- ainda comido pelo jet lag e pelo calor gigante) azul e verde ao mesmo tempo.
Mas o mais surpreendente de tudo, para mim, é a descoberta de que me encontro numa feira gigante. São milhares, as lojas e bancas que vendem tudo o que o povo gosta. Com muita música e altifalantes que gritam, com voz abafada, de dentro das lojas: "Aproveitem, que Dona Graciela deu ordem de baixar tudo!".